HISTÓRIAS

Uma noite muitíssimo estranha

A noite prometia intensas emoções. Pelo menos foi o que eu imaginei. Chegamos ao local e ainda estava cedo para entrarmos. Engraçado, que pra mim, uma pessoa do dia, já estava tarde pra sair. Vinte e uma horas e trinta no meu normal, já estou me preparando para recolher, encerrando as atividades. Mas, numa sexta-feira, logo após o pagamento, namorado novo, a gente se desequilibra e muda o pacote diário.

Convidada a ir para um bar próximo, de um amigo, esperar a abertura do local prometido para a noite, a gente aceita e percebe que existem possibilidades infinitas de se ficar bem naquele dia. Enquanto ele solicita uma cerveja bem gelada aos moldes da casa, água é o que peço, sem coragem de confessar que momentos antes do encontro, já havia estado com uma amiga e tinha tomado litros de suco e comido um bom tira gosto. Então posei de recatada e cordata, deixando-o degustar a cerveja, que estava com sombra branca na garrafa, de tão gelada. Pedi umas rodelas de limão e acrescentei à minha água, fazendo com que ele tomasse um copo também, para aliviar a carga do fígado, que mesmo acostumado a essas noitadas, ainda não estava preparado para a sofrência.

Uma cerveja, uma água, alguns beijos quentes e uma hora depois, ele acertou a pequena conta e saímos, deixando o amigo, dono do bar, admirado pela rápida passagem e consumo tão ínfimo. Antes de me pegar em casa, ele já havia tomado “uma” cerveja…

Mulher não paga até as vinte e três horas. Mais meia hora e eu teria de pagar. Engraçado essa percepção logo na entrada de já se sentir objeto de barganha. Uma moça vestida de uniforme preto com um aparelho na mão, me revistou e a coisa apitou quando passou pela minha bolsa. Pediu para abrir e ela constatou que minha única arma além de batom e carteira, era o meu celular. Sorri constrangida para ela, que riu de volta e me liberou. A revista dele foi mais intensa, conforme observei. Ela sorria. Ele me olhava com um olhar condescendente. Foi liberado e caminhamos em direção a uma mesa estratégica.

Vazio quase. Algumas poucas mulheres. As luzes do local ainda estavam acesas. Todos nós nos vimos. Ninguém se estranhou, exceto com os olhares. Eu era a única mulher acompanhada. Me senti um ET, diante dos olhares gulosos, direcionados à minha companhia e depois francamente a minha pessoa, me passando um raio x de comparação feminina. Desse momento em diante, já comecei a me sentir um peixe no deserto.

Não servem na mesa. Você compra a ficha, vai no balcão e pega seu pedido. Meu companheiro voltou com uma cerveja, não tão gelada quanto a anterior. Sentou-se ao meu lado e me beijou sorridente. Entre um copo de cerveja e alguns beijos bem quentes em que a mão dele insistia em percorrer meu corpo, como um polvo nadando no mar, e eu segurando as investidas, como sardinha correndo de tubarão, pude observar os olhares interessados das donzelas desamparadas e solitárias ao redor.

Mulheres com os corpos à mostra, mesa cheia de cascos de cerveja vazios , corações idem, olhares perscrutadores no alheio. Imaginei o que se passava na mente delas. Consegui contar umas trinta mulheres, sentadas em bandos na mesas e meia dúzia de homens solitários.

As mulheres chegaram cedo e os homens chegaram após vinte e três e trinta. Primeiro deixaram as namoradas em casa, outros esperaram as esposas dormirem ou saíram sem que se dessem conta, as alianças no dedo denunciavam algumas culpabilidades. Um bebia de cabeça baixa, meio absorto em lugar nenhum.

As cabeças viravam simultaneamente a cada pessoa que entrava. Quem sabe um futuro amante, namorado ou pagante da cerveja, poderia entrar naquele momento, aliviando a aflição da solidão ou do bolso.

Beijei muito. Tomei muita água. Cerceei meu companheiro de ultrapassar os limites alcoólicos e cair numa contravenção impedindo a continuidade da alegre parceria. Bom demais, comecei a me sentir culpada. Talvez pelo local mesmo ou pelas pessoas carentes, se embebedando e passando dos limites do corpo e da mente.

Procurando. Desencontrando. Bebida caindo nos copos e olhares ficando cada vez mais lânguidos, denunciando a carência e a necessidade de encontrar alguém para o momento. Passou a não ficar muito bom. As luzes piscantes, a água gelada com limão, a música alta e farfalhante do tecladista, o conforto da cadeira, o riso farto da minha companhia que já estava sob efeito da cerveja, absolutamente não mais me seduziam.

Olhei meu relógio e já era o dia seguinte. Não me apetecia aquela situação esquisita, onde pessoas desencontradas consigo mesmas procuravam alguém que as olhasse e encontrasse sintonia no seu desacerto e as acompanhasse até os dias seguintes.

Convidei-o a seguir-me porta afora e vi seu olhar incrédulo, perguntando porque não gostei. Com meu olhar de está tudo tranquilo, sorri, peguei-lhe na mão e prometi com um trejeito, aquilo que não lhe daria naquele dia. Ele seguiu-me feliz. Na porta de casa, dei-lhe alguns deliciosos beijos e veladamente refiz a promessa para o dia seguinte, deixando-o inacabado e querendo o cumprimento da promessa que não fora feita com palavras.

E aquelas mulheres seminuas, bêbadas, acompanhadas das concorrentes, buscando uma migalha de atenção e sendo sorteadas por aquilo que não apresentavam aos passageiros infelizes do momento. Quem acertou o alvo? Quem iria para casa sorrindo e acompanhada? Será que em algum momento elas se dariam conta de que eram apenas objeto na prateleira da vida? Dormir pensando…

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