HISTÓRIAS

Saudades de ser convidada

 

Já passei dos 5.0 mas, me lembro de algumas coisas de quando era criança. Uma das minhas gratas recordações, é de meus pais nos levarem para visitar amigos e parentes. Lembro bem que nesse dia tínhamos de tomar uma banho mais demorado e lavar mais bem lavado as partes menos cheirosas, como dizia minha mãe.

  • Lava esse pé e esse sovaco direito, porque não quero menino fedendo atrás de mim. Se não tomar banho direito vai ficar aqui tomando conta da casa.

E claro, nenhum de nós queria ficar para trás, porque essa era uma das poucas oportunidades de sair de casa.

Caprichávamos e quando terminávamos de nos arrumar, sentávamos no banco da cozinha em silêncio esperando o pai nos convocar para a saída. Mamãe fazia a última inspeção, olhava os pés, cheirava o pescoço e só então a gente podia sair.

Educadamente íamos andando a frente de nossos pais. Isso mesmo, andando. E sempre olhávamos para trás, para ver se não estávamos muito na frente deles, que iam conversando amenidades. Quando nos distanciávamos, ouvíamos papai dar uma pigarreada: hum… hum… e então diminuíamos o passo.

Os passeios eram sempre a noite e não tinha luz na rua, por isso meu pai levava um lampião para iluminar o caminho.

Já aconteceu de tropeçarmos e ir de encontro ao chão. Mamãe não falava nada, dava aquela examinada e caso a roupa tivesse sujado, voltávamos todos pra casa. E o que caiu tinha de enfrentar o azedume de papai e a cara feia dos irmãos impedidos de desfrutar do passeio. Não era fácil o sentimento de culpa, mas não desfrutar do passeio era a pior coisa para nos acontecer.

Ninguém avisava que estava indo visitar, porque não tinha telefone, as casas ficavam distantes umas das outras e no entanto, éramos todos recebidos como reis e rainhas. Os anfitriões sempre festejavam as visitas, fosse quem fosse. Recebiam-nos com tanta alegria, que se tornava um prazer ir visitar alguém.

Naquele tempo as famílias eram enormes, e as vezes levávamos um tempão cumprimentando todo mundo, porque era o certo a fazer, com vergonha ou timidez, tinha de dar a mão a todos.

Meu pai falava: – Vai “sordá os mais velhos” e as criança tamém! E nós íamos. Ninguém questionava ou desacatava a ordem. Era natural fazer o que nos mandavam. Todos faziam assim. E na outra família também.

E só depois dos cumprimentos é que podíamos sentar. E tinha de esperar o convite. Ai de quem passasse na frente e sentasse. Papai dava só uma olhada de esguelha e a gente já preparava o coro pro amaciamento mais tarde.

E então ouvíamos:

– Uai, vão se sentano gente! A casa é de oceis! Bão demais oceis aqui! Vão prozear!

A gente sentava no banco e ficava calado ouvindo os adultos prosearem. As casas eram simples, mas muito acolhedoras. Depois de um tempo a dona da casa perguntava se a gente queira ir brincar lá fora. A gente balançava a cabeça negativamente. Morríamos de medo do escuro.

Depois de um tempo de prosa, o dono da casa levantava e pegava uma pinguinha pro meu pai, então a gente sabia que estava perto o momento que a gente mais gostava. A dona da casa chamava mamãe pra cozinha e a gente ia junto. Sentávamos todos juntos nos bancos, a preferência era das visitas. Se não tivesse lugar suficiente, os filhos da casa sentavam no chão sem nenhuma cerimônia ou reclamação.

Geralmente já tinha pronto algumas comidas, mas a dona da casa sempre fazia mais algumas coisinhas pras visitas. A gente ficava de olho grande na mesa, observando à medida em que a mesa ia se enchendo de coisas boas, que nem sempre tínhamos em casa no dia a dia.

Enquanto isso, na sala, com a conversa regada a cachaça, papai e o dono da casa já estavam soltinhos, dando ótimas gargalhadas.

Ninguém conversava, com medo de ser chamado a atenção. Timidez era mato dos dois lados, das visita e dos moradores.

Quando tudo ficava pronto, já estávamos quase “aguando”. A dona da casa chegava na porta da sala e convocava os homens pra cozinha, porque os quitutes estavam prontos.  Nisso, já era bem tarde pro nosso padrão de dormir junto com as galinhas.

Somente quando os homens sentavam na mesa e iniciava a comilança era que a gente estava liberado pra colocar a mão e comer também, mas mesmo assim olhávamos pra nossa mãe esperando a liberação, com um aceno de cabeça.

Gente, era muito bom, comíamos demais. Era muita fartura. Bolos, pão de queijo, pastel de angu, mandioca frita, batata doce cozida, pão caseiro, manteiga, biscoito de polvilho, queijo, café com leite, tudo a vontade.

Este era o momento sublime em que todos nós esquecíamos a timidez e falávamos pelo cotovelo, ríamos, brincávamos, piadas bobas e sorrisos soltos.

Não tinha televisão, nem DVD, nem videogame, e também não se conhecia drogas. Era a vida sendo vivida na simplicidade, no andar do sol e da lua. Era amizade verdadeira, respeito e solidariedade.

Depois que a barriga estava bem cheia, ainda se conversava um pouco na beira do fogão de lenha e a gente sentava no chão e brincava de cinco marias, passa anel e com quem será, enquanto nossos pais esquentavam a barriga no fogão.

Quando meu pai, começava a esfregar a barriga, sabíamos que era hora de ir embora. Então ele começava as despedidas e nós íamos atrás nos despedindo também e a mesma rotina da entrada era na saída. Com a diferença de que agora sorríamos solto e ainda rolava abraços nos amigos da casa. Ficava a promessa de que a próxima vez seria lá em casa.

Bem lá na frente da estrada olhávamos pra trás e a família estava toda na porta, acenando para nós, que retribuíamos alegres. E então papai já começava a soltar os gases bem alto.

  • Credo, Zé! Tem educação não?

  • Uai muié, quem é furado num morre inchado! E soltava uns peidos violentos.

Graças a Deus que estávamos na estrada, porque os gases do meu pai fediam demais. Toda vez era isso. Bebia, comia e depois disparava a peidar.

Não tinha ônibus, nem carro, e a gente nem sabia o que era taxi ou Uber. Mas era feliz a rodo. Chegávamos em casa pregados, sonolentos, lavávamos os pés, colocávamos os pijamas, deitava na cama e sonhávamos com a próxima visita que iríamos fazer.

Do nosso lado, quando chegava visita, era a mesma coisa. Era muito bom. Muita alegria e muita fartura também. Com a diferença que meu pai não excedia, porque peidar na cara da visita não fazia bem nenhum. E quando todos se despediam, todos nós nos juntávamos na porta para dar adeus. Não entravamos enquanto não sumiam na curva da estrada.

Hoje, não tenho mais visitas e também não as faço. Tudo está mais fácil, mas me parece tão difícil visitar. Se você liga pra sondar, parece que as pessoas não querem te receber, porque sempre tem um compromisso. E se você vai sem avisar, não é tão bem recebido, porque atualmente é grosseiro visitar sem avisar, ou então bate com a cara na porta.

Então fico em casa vendo TV, no WhatsApp, no Facebook, lendo um livro ou e-mails, estudando e comendo com a minha solidão. A esta altura da minha vida, filhos criados, netos crescendo, me parece que meu doutorado em solidão já está na porta do meu coração.

Centenas de amigos virtuais e nenhum real. Não há convites para resenhas, bate-papos, conversa longas ou ver um filme. Tudo muito rápido, muito impessoal. Não se abre a casa para ninguém. Tudo é feito na rua, em botecos ou nos shoppings.

Só vemos as pessoas em enterros, isso quando vamos. Os nascimentos, antes comemorados com festas, agora são chás de fraldas, onde são convidadas algumas pessoas do círculo familiar e muitos são esquecidos, e por isso, como não foram lembrados vão conhecer os bebês andando, ou já em idade escolar.

Cada dia mais conectados e mais distantes. Sociedade onde falta tudo. Somos túmulos vivos da esperança. Trancamos nossa casa e nosso coração.

Meu Deus, que saudade das visitas, das festas de aniversário, dos chás de bebês, dos convites para casamento, dos convites desinteressados, das resenhas de café com pão de queijo… que saudade!!!

 

FocoForçaFé!

 

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