OPINIÃO

Uma solução para os problemas?

Um dia, chateada com os meus problemas, resolvi ir até a casa de meus pais para conversar com minha mãe e pedir conselhos. Estava cansada. Triste, desiludida e querendo desistir de tudo. Liguei para ela e avisei que estava indo para almoçar com ela. Peguei meus dois filhos e fui.

Assim que adentrei a casa, ela já foi perguntando, enquanto agarrava os netos e enchia-os de beijos carinhosos:

  • Que houve filha, que semblante triste é esse?

  • Ah mãe… estou cansada desta vida! Está tudo dando errado! Meu serviço está uma merda e não tenho condições de sair de lá agora. Estou muito  chateada…

Ela me olhou, fez sinal de “espera um pouco” com a mão, ligou a TV e colocou no canal preferido das crianças.

  • Vamos pra cozinha conversar. E virando pros meninos disse que ia fazer uma limonada para eles, antes do almoço.

Na cozinha, contei os problemas do meu serviço, cansada da faculdade, o pai deles que não ajudava em nada e nem pagava a pensão direito. E fui murmurando um rosário de reclamações em cima dela.

Mamãe ouvia calada, enquanto descascava as batatas para fazer o purê. Depois de limpas, colocou-as no fogo e juntou alguns ovos, para aproveitar a água. Perguntou-me se queria café ou limonada.

  • Eu adoro café!

  • Eu sei! Vou fazer café pra gente e limonada pros meninos. Pegou a chaleira, colocou água, acendeu o fogo e depositou-a sobre a trempe.

Eu continuei a reclamar, choramingando os problemas. Lamentei de todos as formas possíveis. Mamãe apenas sorria e balançava a cabeça.

A água ferveu. Mamãe fez o café, já tinha servido a limonada aos meninos sem eu nem me dar conta, distraída com minhas lamentações da vidinha ruim.

Tomamos o café, enquanto ela terminava o almoço. Ela pegou a panela com as batatas e virou-a na pia. Virando-se pra mim, ela perguntou:

  • Vê essas batatas e os ovos?

  • Claro! Respondi.

  • E o que você pode observar sobre eles?

  • Uai! Estão cozidos! O que que tem?

  • O café estava bom pra você?

  • Claro mãe! Não estou entendendo a senhora. Faz o melhor café que conheço!

  • Pois é, batatas, ovos e café! O que te vêm a mente?

Eu permaneci calada, porque não estava entendendo onde ela queria chegar.

Mamãe apertou uma das batatas e disse que estava bem macia. No ponto para o purê. Pegou um ovo, descascou e mostrou-me o quanto estava durinho.

E eu continuei sem entender nada.

  • Você pode observar-me fazendo o café e colocando as batatas e os ovos para cozinhar. Todos passaram pela água fervente. Mas, você viu também que cada um deles terminou de forma diferente ao passar pela água quente?

Então ela explicou que a batata antes rija, firme, dentro da água quente acabou amolecendo. Que o ovo todo mole por dentro e com uma fina casca por fora, ficou endurecido, depois da água fervente. Mas, que o pó de café, ao ser submetido à água quente, mudou a si mesmo e a água em que foi inserido.

  • Observando os três, com qual você acha que se parece? Mamãe me encarou, olho no olho, reticente.

  • Uai, não sei!

Então ela me saiu com a explicação que a água fervente é a dor, a sofrência, os problemas da nossa vida. A batata parecia forte, estável, mas assim que caiu na água fervente, amoleceu e perdeu a firmeza e as estruturas. O ovo, todo molenga por dentro, exterior fino, delicado, bastou o calor e se endureceu todo.

  • E nós, como nos parecemos nas adversidades?

Somos duros com tudo, mas quando aparece os problemas, amolecemos, desistimos? Ou somos todo sensível, mas ao sinal de um forte problema, viramos do avesso e nos tornamos um muro impenetrável, um bloco sólido, permanecendo apenas com a casca lisa e protetora das aparências?

  • Mas, o bom mesmo é sermos pó de café. Os problemas aparecem e a dor vem, e nós acabamos mudando nossa vida por isso. Sendo como o pó de café, quando as coisas pioram, nós teremos a capacidade de mudar nossa situação e nosso entorno. Nos misturamos aos problemas, resolvendo-os ou não, nossa essência será a mesma, mas nossa vida mudará.

Sendo que nem o pó de café, nós melhoramos a situação ao nos misturarmos a ela, porque embora a dor aconteça, sofrer é opcional. O que fazemos com a dor e a sofrência, determina quem somos.

  • Então filha, o que você escolhe ser?

  • Estou querendo muito ser café!

  • Espero que você transforme os problemas em aprendizado, mas continuando com a doçura, a harmonia e muita fé. Os obstáculos sempre existirão, porque eles são os tijolos para nos ajudar a construir nosso destino. E as dores, nos manterão humanos.

E continuou:

  • Para sermos felizes não precisamos ter de tudo, precisamos é aprender a tirar o melhor proveito de tudo que nos acontece. Que sejamos como o café! Deixarmos de praticar a muquerela*, porque ao sentimos pena de nós mesmo, nos tornamos um muquerela ambulante. O bom mesmo é procurarmos aprender a nos tornar melhores pessoas apesar da adversidade. Vamos almoçar?

Passei a tarde pensando na tal da muquerela, no café de minha mãe e imaginando as melhores possibilidades para resolver o problema do meu trabalho.

*Muquerela: murmurador, queixoso, reclamador e lamentador.

FocoForçaFé!

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