OPINIÃO

PESSOAS QUE DEIXARAM RASTROS NA MINHA VIDA

Devíamos nascer com bula de indicação e contraindicação. Somos tão imperfeitos, egoístas, orgulhosos, vaidosos e maus. Muitas pessoas já passaram pela minha vida ao longo de meio século de existência. Acredito que angariei meia dúzia de amigos e um número sem cálculo de inimigos (é que muitos não se declaram, são inimigos ocultos).

Quando eu era pequena, acredito que na quarta série, se não me falha a memória, e também não lembro bem o motivo, me parece que por causa de um exercício que valia ponto e que não dei a resposta para a menina, ela prometeu me bater na saída da escola. Covarde que eu era, já comecei a embrulhar o estomago e uma leve dor de barriga. Só me lembro de não conseguir mais prestar atenção a aula depois da promessa de apanhar na rua em frente aos colegas e já saber que não conseguiria reagir.

Quando deu o sinal de saída da aula, eu tremi toda e olhei disfarçadamente para ela, que fez um sinal de soco com o punho em minha direção. Eu ia morrer, pensei na hora. Fiz a maior hora para guardar minhas coisas. Naquela época a professora levava a gente até no portão de saída. Eu não queria sair da escola. Mas não podia falar nada, porque podia ser pior para mim.

Sai de cabeça baixa e entrei na fila. Todo mundo já sabia que eu ia apanhar. Todos me olhavam, uns com pena, outros achando bom, porque ia ter briga na saída e outro tanto alheio aquilo tudo. Assim que o portão se abriu, eu avancei e corri com uma louca. A menina, quando viu o que estava acontecendo correu atrás de mim. E junto dela vinha outras crianças correndo e gritando.

No desespero, eu arfava e meu coração saltava pela boca entrando e saindo num ritmo louco. Não dei mais conta e diminui o ritmo sem olhar para trás, mas ouvindo a gritaria da turma. Naquela altura já queriam ver sangue. Os ânimos exaltados incentivavam a carnificina. Eu ia morrer, deduzia. Além de maior do que eu, que sempre fora um chassi de frango, ela tinha uma turma que a apoiava.

O medo me cegava por causa das lágrimas que escorriam pelo meu rosto, mas graças a Deus eu avistei uma cantineira da escola, que ia conversando com uma outra senhora. Arfando e chorando eu parei na frente dela e disse que os meninos iam me matar, que ela me socorresse, pelo amor de Deus. Ela olhou para trás antes de me responder, pegou-me pela mão e puxou-me para o lado dela.

A turba sanguinária nos alcançou e a menina voou em cima de mim, como um falcão quando vê a caça ao alcance de suas garras, eu era a presa e seria o meu sangue a escorrer. A senhora estacou e falou para ela não me bater, que a respeitasse. A menina continuou praguejando e a turma dela ajudando com provocações. No meio deles tinha um menino anão, que era o pior de todos. Ele chegava por trás e me chutava bem na batata da perna e aquilo doía para caramba. Anão filho da puta, eu pensava. A menina aproveitava meu desequilíbrio e sentava um safanão sem dó nas minas costelas e na minha cabeça.

Eu pensava, vou morrer e essa dona vai arrancar meu braço de tanto me puxar e nada vai acontecer com essa fulana aqui me batendo. A essa altura, a meninada já tinha debandado em retirada, porque não tinha graça ficar acompanhando grupo sem briga. Em dado momento a dona parou, deu um grito e mandou eles sumirem da vista dela ou ela ia chamar a polícia e mandar prender todo mundo. A turma se assustou e saiu correndo, prometendo me esperar para bater.

Eu sabia que eles iam ficar no fim da rua me esperando. Não sabia onde a dona morava. Graças a Deus, ela me levou até próximo da minha casa. Eles tiveram que ir embora, porque perderam a chance de me matar. No outro dia minha mãe foi lá na escola. Não me lembro do que aconteceu, mas a menina nunca mais olhou para mim e nem ameaçou mais me bater. Ela era uma menina pedra.

Anos depois, já adulta eu a vi. Feia, desconjuntada, esquisita do mesmo jeito que ela era em criança. Lembrei de todos os fatos. Por várias vezes eu a vi, depois de adulta e ela sempre do mesmo jeito. Tive vontade de chegar nela e dizer que ela povoou meus pesadelos por longo tempo na minha mocidade e que jamais esqueceria o que ela fez comigo.

Engraçado como algumas coisas marcam a vida da gente. Eu também nunca esqueci da dona que me ajudou, que Deus a abençoe. Ela literalmente salvou a minha vida. Eu a vi também, depois de adulta, e um dia tomei coragem e a agradeci. E lembrei que ela fazia deliciosos bolinhos na merenda, para vender e que eu sempre ganhava um de brinde. Ela era uma mulher flor de ipê, magnifica.

Hoje, sei que já perdoei a menina, embora não tenha esquecido, e até consigo achar graça na situação.

Ainda na quarta série, logo depois do fato da briga, entrou um enino novato na escola, e este também foi o ano em que me apaixonei pela primeira vez. E por causa disso, quase perdi o ano também. Mas, isso é outra história.

Aos treze anos eu adoeci com uma encefalite e quase morri. Fiquei muito tempo internada. Quando voltei a escola, todos os professores tiveram dó de mim, menos o professor de matemática que me deixou de recuperação e me deu bomba por causa de 2 pontos. Minha primeira e única bomba. Ele era um homem tsunami, destruidor. Até hoje me lembro dele e do nome dele, e odeio matemática por causa dele. Não odeio ele.

Por outro lado, amo geografia e história, por causa de uma maravilhosa professora. Mulher mar, grandiosa e humilde. Outra história.

Aos quinze anos eu tive uma festa de aniversário. A primeira e única. Éramos de uma religião em que não podia fazer festa de aniversário. Não sei o que deu na minha mãe, e agradeço seja lá o que for que deu nela, pela festa. Foi tudo muito simples, singelo, mas nunca me esquecerei. Naquele tempo não havia muita festa e qualquer coisa que se fazia, todos queriam ser convidados. Quando comentei com uma colega que eu ia ter uma festa de 15 anos, a notícia se alastrou e por um período de tempo me tornei a sensação e todos se aproximavam de mim, com a intenção de serem convidados. Mas o que mais marcou, por incrível que pareça, foi um rapaz, do qual não me lembro o nome e nem o rosto. Ele era tipo um hippie, e falava gírias e vivia cercado por uma turma igual ele. Não sei porque, ele foi na festa. Não me lembro de tê-lo convidado, mas ele chegou com um amigo e me deram uma boneca sentada sobre as pernas, muito linda, e uma sombrinha japonesa.

Cara, a sombrinha foi a sensação da festa. Ninguém tinha uma igual. Era importada. Entenda, veio com selo de importação e tudo. E dobrava. Dobrava todinha e ficava do tamanho do meu antebraço. Toda colorida. E tinha um pino que a gente empurrava e ela abria no automático. Meu Deus! Show! Me sentia uma super pessoa. Naquele tempo as nossas sombrinhas eram enormes. Feitas mesmo com o objetivo de nos proteger da chuva, mas aquele mimo, era só para gente tirar firula e dizer eu tenho e você não tem. E a bonequinha era tão linda que até pouco tempo eu a tinha, até uma cachorra filhotinha, literalmente uma cadela sem mãe, comer a cabeça dela. Por vários anos, eu conservei a sombrinha. Até que um dia, virou moda todo mundo ter uma igual, coisa de chinês, imperdoável. Ele foi um homem rosa, quase perfeito. E os chineses? Melhor nem comentar…

E depois eu casei, tive filhos, fui feliz, sofri, chorei, passei falta, sobrei na parada, ri, desisti, recomecei, e me vi refazendo tudo por causa de pessoas, coisas e principalmente por amor aos filhos.

Pulando uns trinta anos…

Descobri que a duras penas que precisava me valorizar por causa das pessoas pedras que sempre estariam em meu caminho, tentando me derrubar e me machucar. Que precisava me amar, me quere bem e nunca permitir que as pessoas furacões me diminuíssem, me rebaixassem ou que matassem minha autoestima.

Eu sou o que sou, apesar de todas luas que passaram por mim, e tentaram em suas mudanças de fases, me fazer achar que eu não era nada, porque o que estava na minha mesa, na minha casa, ou no meu corpo, não era o que elas achavam que deveria ser.

Entendi que as pessoas que são água de pântano sempre vão tentar interferir no que nós somos, querendo nos afogar em seus desatinos, nos desejos egoístas, nocivos e particulares. Mas, elas só conseguirão nos ferir e inferiorizar, se nós nos misturarmos a elas, afundarmos em seus espaços de domínio e deixarmos que elas nos anulem. Tenho de valorizar meu passe.

Graças a Deus, eu compreendi que o mundo está cheio de pessoas superficiais, egoístas, orgulhosas, vaidosas, que pensam serem mais do que os outros, e que apesar da nossa índole inclinada ao mal, eu não devo e não posso ser mais uma delas. Devo amar as pessoas, agir com amor, pensar com amor. É complexo, mas devo tentar. É complicado, mas devo insistir. É difícil, mas devo fazer.

Sou convencida, pelo amor que Cristo nos ensinou, a entender que, o mal que eu faço volta para mim, porque não tem como plantar vento e não colher tempestade. Então, pedras, terremotos, tsunami, seja lá o que for, não podem deter o bem que desejo e devo fazer.

Vou persistir no caminho do bem com muita fé em Deus, acreditando no amanhã com otimismo e amor no coração. O mal alheio não pode me parar, no máximo me atrasar no caminho.

De Deus não se mofa, o que o homem semear, colherá!!!

Foco, Força e fé!

 

 

 

 

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