HISTÓRIAS

AMORES – PARTE I

Eu não diria que tenho dedo podre pra escolher homens, mas um tantinho estragado ou uma unha quebrada, ah isso sim, eu tenho mesmo.

Não tive uma legião de namorados debaixo desses meus 50 anos, mas tive um numero bem considerável, levando em conta que já me casei quatro vezes e namorei umas boas dezenas. Baseando-me nisto, posso avaliar capacidade de enumerar os erros e acertos, sendo o primeiro bem maior do que o segundo.

Dez anos. Meu primeiro amor. Estávamos na quarta serie. Carlos, moreno claro, mais baixo do que eu. Tinhas umas sardas incríveis e uma covinha só do lado esquerdo do rosto. Ele sentava duas carteiras atrás de mim e vivia me pedindo uma borracha emprestada. Um dia eu parti a borracha no meio e fui levar pra ele. Quando cheguei à carteira dele, vi que ele colocou a mão em cima da mesa, disfarcei pra ele num ver que eu tinha visto que ele escondera uma borracha debaixo dela. Então era desculpa, pensei inocente. Depois daquele dia ele nunca mais me pediu borracha emprestada, mas sempre dava um jeito de sentar perto de mim na hora do lanche. Ele levava pão com manteiga e sempre me oferecia um pedaço. Às vezes eu fingia que tinha esquecido o lanche só pra ele me oferecer o dele. E aquele kisuco docinho que ele me dava, ai meu Deus, delícia. Sinto o gosto na boca quando lembro. Fazíamos trabalhos juntos na escola e um dia ele pegou na minha mão quando estava chovendo, era pra eu não escorregar e cair, conforme ele disse ao estender a mão pra mim. Naquele dia eu nem dormi direito. Mas foi só isso. O ano acabou e eu tive de mudar de escola, porque lá só tinha até a quarta série. Nunca mais vi o Carlos. Nunca o esqueci e acredito que não vou esquecer. Depois de velha passei pela rua onde ele morava e, com o coração aos saltos olhei esticado para onde era casa dele. Nada, claro, e mesmo se o visse não saberia que era ele. Esperança tola, coisa boba né…

Um dia eu fiquei doente e quase morri. Eu estava na sexta série. Tinha doze anos. Mas esta é outra história. Depois eu conto como foi quase morrer.

Doze anos. Aos 12 anos eu comecei a me apaixonar por um colega de sala. Ele vivia rodeado de meninas, todas o adoravam. Era inteligente, falava macio e era todo dengoso, um cavalheiro pra época. Sempre deixava a gente passar na frente dele na cantina, deixava todo mundo colar da prova dele. Na educação física ele corria mais que todo mundo e a gente achava engraçado ele rebolar enquanto corria. Um dia ele foi pego flagrado pela coordenadora de recreio atrás da quadra. Foi um reboliço na escola. Os pais dele o tiraram da escola e nunca mais o vimos. Contaram que ele estava fazendo troca-troca com dois garotos da oitava série.

Catorze anos. Tive meu primeiro namorado. Durou três meses. Boba e infantil se comparada à época de hoje, onde as meninas de 14 brincam com filhos e não com bonecas. Ele tinha um nome esquisito. Era tão branco que parecia feito de leite e as veias saltavam aos olhos. Tinha olhos azuis da cor do céu que teimavam em olhar cada um para um lado e os óculos grandes as vezes caia do rosto. Tinha um cabelo grudento de óleo, que eu não sabia se era gel ou sei lá o que na época. Mas ele era bem charmoso com o jeitinho de falar: “Oi menina linda, vamu namorar hoje? Adorava ser chamada de linda, e ele sabia que eu gostava. Mas beijar mesmo que é bom… nunca tive coragem. Um dia ele pediu prova de amor e o máximo que fiz, foi pegar na mão e depois dar um abraço desajeitado, desses que a gente dá em um parente distante quando nos conhecemos a primeira vez. Ficava com vontade de beijar, mas o medo de ser pecado era maior do que a vontade de experimentar, daí não experimentei, embora o sujeito, que já tinha dezoito anos e falava em casamento, houvesse tentado umas boas dezenas de vezes sentar a boca na minha. Agora eu vejo, oh perda de tempo meu Deus, podia ter inaugurado a boca aos catorze.

Catorze e meio. Me apaixonei por um rapaz da minha igreja, ele tinha mais de vinte e até já tinha ficado noivo uma vez. Era um negro lindo, alto, magro, parecia um modelo de capa de revista, quase perfeito. Cara, ele me esnobou com força. Como toda apaixonada, eu dei bandeira, ficava olhando pra ele na hora do culto, mandava bilhetinho perguntando bobeiras da minha idade e ele sempre respondia com a maior cara de sem noção do mundo. Ele me deu mole, mas depois eu descobri que ele fazia isso com todas. Dava corda pra ver a gente se enforcar. Ele sempre estava rodeado de moças. Posava de bom rapaz e beijava todas, isso quando não rolava uns amassos com as mais avançadinhas. Um dia nós viajamos com a igreja para uma excursão de domingo até uma cidade próxima para fazermos piquenique e nadar. Ele ficou o tempo todo me dando corda, de papinho comigo e ignorando as outras. Na volta ele deu um jeito de sentar ao meu lado. Conversa vai e vem. Meu primeiro beijo rolou. Coisa mais boba, ele enfiando a língua na minha boca e eu sem saber o que fazer com a dele e a minha ao mesmo tempo, muito babado, achei nojento. Ele dando uma de quem era experiente em beijo e eu uma BV sem noção, foi dureza. No segundo beijo eu já estava achando bem melhor. Alguns beijos depois, quase chegando ao nosso destino, ele se finge de besta, olha pra mim e diz que não podia me namorar porque a mãe dele não deixaria, porque ele era negro e eu muito clara pra ele. Olha que meu pai é negro, num teria com eu ser “muito clara pra ele”. Na época foi a forma dele dizer: “num to a fim, queria só experimentar a sua boca”. Sem nenhuma cerimônia, ele se levantou e foi sentar lá atrás onde ficava a turma da bagunça. Eu devia era ter matado ele na hora. Mas acredita que a besta aqui continuou apaixonada por ele por uns bons seis meses ainda? Até que ele arrumou uma moça aguada, de olhos verdes, e cabelo de milho e casou com ela. Ela estava grávida. O que será que aconteceu com a não possibilidade de mistura de raça? Tive notícia dele tempos atrás, eu não perdi nada.

Houve certa época que mudei de sonhos e passei a desejar me casar com um homem de olhos claros. Amava olhos azuis ou verdes. Descobri que eu preferia os homens mais velhos, bem mais velhos.

Quinze anos. Conheci um rapaz lindo, naquele tempo eu achava, agora nem tanto. Tinha olhos azuis. E tinha 33 anos. Namorei um mês e descobri que ele namorava uma garota de vinte e dois. Ele terminou com ela pra ficar só comigo, mas daí eu já havia descoberto. Terminei com ele, mas ele ficou durante algum tempo atrás de mim. Foi então que eu atinei que homens não gostam de serem dispensados. Aliás, ninguém gosta, mas o machismo do homem faz com que ele considere que é muito pior quando ele toma o pé na bunda.

Quinze e pouquinho. Nuss! Este era realmente gato. Olhos claros. Corpão. 32 anos bem vividos. Com ele conheci as mãos espertas. Aprendi a beijar de língua, e muito bem beijado. Aprendi a dar uns amassos bem dados, daqueles de ficar com as pernas bambas. Mas só ficou nisso também. Naquele tempo, não se podia comprometer a virgindade, porque moça usada não casava. Pelo menos era o que mamãe dizia. Ficamos alguns meses no vai e vem das mãos, mas sem perder a “castidade” sagrada. Ele me pediu em casamento, deu aliança e já estava começando a construir a casa no lote do pai dele.

Um dia quase fomos às “vias de fato”. Meus pais estavam fora, não me lembro fazendo o quê, e minha avó materna estava em casa cuidando de mim e de meus irmãos. Ele veio “fazer a corte”. Minha avó estava no quarto lendo a Bíblia, ela também era evangélica, e a gente ficou na sala ouvindo música baixinho e conversando. Em dado momento começamos a ouvir os roncos dela. Pra que isso aconteceu? Foi como um alarme soando: vamos brincar de casinha? Começamos a nos pegar. As mãos já estavam onde não deviam e a boca também. Mas daí os roncos pararam: – “Tá muito quieto ai na sala? Tão fazendo o que? To indo ai. Nunca vi ninguém vestir roupa tão rápido na minha vida…

Depois do susto e da minha avó falar com minha mãe, bem na minha cara, que eu tava me pegando com o namorado enquanto ela lia a Bíblia, nunca mais fui deixada sozinha com ele. As coisas pioraram entre nós. Eu continuava na igreja e ele ia comigo só pra fazer minha vontade, mas não gostava nada daquilo, conforme ele falava. Minha mãe fazia pressão para ele se decidir a frequentar e se tornar nosso irmão. Depois, ele decidiu de vez que casava comigo, mas que não ia ser nosso irmão de jeito nenhum. Mamãe fez pressão, ele ou a igreja. Eu fiz pressão sobre ele, e o namoro foi esfriando e acabou. Sofri muito, porque já estava planejando os “bacurinhos” de olhos verdes ou azuis com ele. Ele me procurou por algum tempo, mas depois acabou de vez e ele sumiu. Soube por fonte fidedigna que ele quase se acabou de sofrer por mim, mas depois arrumou uma moça, se casou, teve quatro filhos e virou açougueiro. Nunca mais tive notícia.

Dezessete anos. Perdidamente apaixonada. Trolada no amor dos pés a cabeça. Mas essa é outra história…

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