HISTÓRIAS

Éramos nove

Éramos nove. Deus, Eu, você, felicidade, cumplicidade, compreensão, fidelidade, respeito, sexo.

O sexo era muito bom, às vezes ótimo, e em certas ocasiões, excelentemente transcendente.

O respeito era tudo de bom. Não fazíamos nada sem consultar o outro. A minha liberdade começava onde terminava a sua e vice-versa.

Éramos fieis ao nosso amor, ao nosso dia-a-dia, não traíamos nossos corações em nenhuma hipótese. Éramos o suficiente um pro outro.

Como nos compreendíamos. Eu olhava e você já respondia. Você falava e eu completava a frase. Eu sabia quem era você e te aceitava com todos os seus limites. Você me sabia por inteira e mesmo assim me queria.

Cúmplices nos pecados, nos quereres, nos sorrisos, nos sim e nos nãos. Entediamos os nossos olhares atravessados e atravessávamos os olhares dos outros para nos encontrarmos no reflexo de nossos corações.

Felizes como crianças com pirulitos de mel. Felizes como o aparecer do sol depois da chuva. Felizes como o cair da chuva depois de um dia quente e abafado de verão. Felizes como um eclipse na floresta dos sentimentos como se fossemos sol e lua. Felizes porque nos amávamos e nos bastávamos.

Deus estava no controle de nossas vidas. Tínhamos tudo. Tínhamos um ao outro.

Um dia de sol ou de lua, seus olhos viram outros olhos, seu corpo tocou outro corpo, suas mãos agarraram outras mãos que não as minhas. Antes éramos um só. Éramos você e eu. Éramos você. Éramos eu. Agora éramos três.

Um dia de dor ou de engano, nossa felicidade se partiu, porque éramos em três e deixou de ser completa para nós dois, porque eu te busquei e você não mais estava lá, porque éramos três.

Um dia de mentira ou de tristeza, a cumplicidade foi corrompida, quando o espelho não refletiu nossas almas em conjunto e minha alma chorou sangue pela dor de buscar consolo no seu olhar e este estar em outro lugar. Eu era uma só.

Um dia meu coração não conseguiu obter a devida compreensão da extensão de sua perda. Antes éramos dois. Agora éramos eu, você e a outra pessoa. Como entender a perda da alma siamesa, se seu coração sangra perdido na ilusão de voltar a ser só um?

Um dia de trevas ou de ausência, a fidelidade se perdeu em meio a um emaranhado de corpos. O respeito se esvaiu nas promessas de sexo ardente com outro corpo que não o meu.

Um tríplice cordão não pode ser rompido, exceto, quando o terceiro cordão não é a luz que nos uniu. E então, perdeu-se a identidade conjunta. O nós, virou eu. O nós, virou você. Nós não existíamos mais.

Tudo que tínhamos era um ao outro. Um de nós se perdeu no desejo momentâneo de satisfação vazia do corpo e o nós virou nada.

Hoje somos oito. Deus, eu, infelicidade, divergências, incompreensão, infidelidade, desrespeito, você.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s