HISTÓRIAS

TRAIÇÃO SEM PERDÃO

Entrou em casa e fechou a porta atrás de si. Falava sozinha. Ligou o rádio. Uma música chorosa, onde o rapaz pedia a amada para perdoá-lo e voltar. Achou aquilo muito chato e mudou de emissora. Caiu num funk neurótico e frenético. Estilo to muito doidão. Bem mais a sua cara. Aquilo sim era música pros seus ouvidos. Tirou a roupa e jogou-a num canto qualquer. Foi até o banheiro e ligou o chuveiro. Queria ver se a merda esquentava, porque banho frio àquela hora nem pensar. Voltou ao quarto, olhou o relógio da mesinha de cabeceira. 23h15.  O filho da puta nem se dignou a telefonar, pra avisar que não ia buscá-la. Não duvidava que estivesse com uma de suas putinhas do trabalho, fazendo hora extra. Balançou a cabeça negativamente.

Deu uma olhada no corpo em frente ao espelho e pensou que dava um bom caldo ainda, embora tivesse passado dos trinta há muito tempo. Qual seria a desculpa dele desta vez? Perguntou em voz alta. Ele a deixou pegar ônibus lotado, com o pé recém-tirado do gesso. Culpa dele, o pé quebrado. Chegou bêbado em casa e desequilibrado, escorregou, jogando-a no chão e travando o pé no sofá que virou ao contrário e quebrou. Devia ter um mínimo de dignidade e pelo menos fazer a gentileza de buscá-la todos os dias. Cada dia era uma desculpa diferente. Cachorro, filho da puta mesquinho e bebum.

Gritou de raiva quando se enfiou debaixo do chuveiro. – Que merda de água fria é essa! Falou desanimada. – Nada nesta casa funciona direito. Bufou. E se manteve parada com a água quase fria caindo em suas costas. Um dia ela teria um chuveiro que prestasse e talvez um marido melhor também. Diminuiu a água ao máximo e obteve um morno até agradável. Fechou os olhos e divagou em vez de tomar banho. Sua amiga já tinha partido para o congresso com a passagem comprada no seu nome. A reserva do hotel também estava no nome dela. Para todos os efeitos, ela tinha saído da cidade às dezenove horas.

A água voltou a esfriar. Esfregou-se rapidamente, enxaguou-se e pegou a toalha, enrolando-se nela. Secou o corpo. Pegou um pijama qualquer e vestiu. Prendeu o cabelo displicentemente e foi pra cozinha. Olhou o relógio. Ele não demoraria a chegar. Preparou um sanduiche de queijo e presunto. Colocou suco de manga no copo. Era o preferido dele. Acrescentou uma dose cavalar do veneno. Misturou, cheirou.

A campainha tocou. O cretino esqueceu a chave de novo. Pegou o sanduiche e deu uma mordida. O barulho estridente incomodou seu ouvido. Já vou seu filho de quenga cega. Foi abrir a porta. Ele a empurrou para o lado e entrou correndo, certamente em direção ao banheiro. Voltou alguns segundos depois e a encontrou na cozinha comendo o sanduiche calmamente.

– Desculpe, mas não tive como sair mais cedo. Você sabe como é a gerência de banco.

– Sei! Não tem importância.

O hálito etílico invadia seu espaço afrontando seu nariz de forma estúpida. O perfume barato das suas colegas de trabalho, o cheiro de cigarro, misturavam-se ao seu próprio perfume masculino e juntos formavam um novo e nauseante cheiro: Perfumê de gambê. Ela sorriu com a comparação que fez.

Ele olhou para o copo cheio de suco na mão dela. Pegou-o e tomou tudo de um gole só, como sempre fazia.

– Não tome! Ela esboçou um reprimenda.

– Pega outro pra você, vadia besta! Esse já foi. Não tem mais na geladeira? Vou tomar um banho e tirar este cheiro de inhaca da reunião no banco.

Ela deu uma olhada nele. Ainda era bonito. Sem barriga. Olhos lindos e aquela covinha no queixo, oh desespero. Porque tinha de ser tão um puto tão desavergonhado? Pegou outro copo, foi à geladeira e colocou suco. Terminou de comer o sanduiche. Lavou seu copo e limpou a mesa. Passou um pano úmido no copo dele e tirou suas digitais, deixando o copo no mesmo lugar. Ouviu o baque surdo no quarto. Algo pesado caindo no chão. Sorriu só de um lado do rosto. Foi averiguar o fato.

Ele espumava pela boca e tentava falar alguma coisa com ela. Arregalou os olhos e estrebuchou o corpo. Ela passou por cima. Trocou de roupa. Pegou a mala e a bolsa. Antes, assuntou no pescoço para ver se ainda respirava. Não. Pegou o celular dele e ligou para o dela. Não atendeu, é claro.

– Nunca mais vai me trair, tomar o que é meu, me bater, me desrespeitar. Calhorda! Pestilento! Cão sarnento! Pilantra!

Abriu a porta. Saiu. Trancou-a por fora. Foi embora.

Dois dias depois recebeu um telefonema da polícia pedindo para ela voltar do congresso, porque seu marido foi encontrado morto no apartamento, com suspeita de suicídio.

No depoimento a polícia, ela chorou, se descabelou e contou que ele tinha uma amante e que estava pensando em ir morar com ela, mas ele havia descoberto três dias antes que a mesma o traia com outro colega de trabalho. Ela gostava dele e não queria que ele terminasse assim. Pelo jeito ele não conseguiu viver sem a amante. Era muito triste.

No testamento, que ele não teve tempo de mudar, deixou tudo para ela: seguro de vida, conta bancária cheia, porque ele era um muquirana, dois apartamentos herdados da avó materna, seu próprio apartamento quitado, um sítio enorme em área privilegiada e muito requisitada, um bom carro do ano, e a ótima pensão de gerente geral do banco. Melhor impossível.

 

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