HISTÓRIAS

A ESPERA

Sol escaldante. Vento batendo nas escassas árvores e repicando gostoso na pele. Olhou o relógio, que demora, pensou. Apenas uma árvore frondosa na calçada, suficiente para abrigá-la do sol. Um rapaz alto e moreno chegou e se adiantou, colocando-se na sombra. Encostou-se a ela e ficou olhando o vazio. A moça acompanhou com o olhar enquanto ele retirava a camisa e se refestelava com o vento. Ele deveria estar esperando o ônibus também, ela pensou. Ficou na dúvida se devia se aproximar e desfrutar da sombra junto com ele. Achou melhor não ir. Ele poderia pensar alguma coisa dela.

O sol estava queimando seus braços descobertos. O vento não era suficiente para acalmar seu calor. O rapaz se abaixou e pegou algo na mochila. Uma garrafa de água. Abriu e jogou o conteúdo na cabeça, que escorreu pelo corpo desnudo, ao mesmo tempo sorrindo satisfeito. Que inveja, pensou ela, eu aqui neste sol escaldante, ele na sombra se esbaldando e ainda fica se molhando deste jeito sensual, provocando só Deus sabe lá o quê na gente.

– Você pode ficar aqui na sombra. O sol tá muito quente e parece que o ônibus tá de pirraça com a gente. Tenho mais água na mochila, quer um pouco?

Sem pensar em nada, ela se colocou sob a proteção da árvore e ao lado daquele belo espécime masculino.

– Obrigada! Não estou com sede! Realmente o ônibus hoje tá demorando mesmo. Respondeu oferecendo o seu melhor sorriso de covinhas.

– É, e ainda tá um inferno aqui hoje, né?

Instaurou-se um papo agradável, com revelações particulares dos dois lados. Estava indo pro mesmo lado que ela, solteiro, professor de biologia, estudou para ser padre, mas depois descobriu que não era sua vocação. Ela solteira, estudante de matemática, morava com uma tia velha. Ele estava indo para um churrasco de aniversário do irmão médico. Ela, para um batizado do filho de uma amiga.

O ônibus chegou. Uma hora no ponto. Fim de semana é assim mesmo, ela pensou. Entraram. Um ar sufocante e com gosto de suor bateu em seu rosto. Ela sorriu para o motorista e deu bom dia. Ele nem olhou. Lotação lotada. Nem ligou, porque o papo com ele continuou. O ônibus deu uma freada e ele a segurou. Ela sorriu agradecida. Ele retribuiu com um sorriso perfeito.

Quinze minutos se passaram. Ela olhou o relógio. Nossa! pensou. Não vai dar mais tempo. Nem tinha me dado conta da hora.

– O que houve? Ele indagou diante do rosto preocupado dela.

– Estou muito atrasada. O batizado já acabou. Vou voltar neste ônibus mesmo, nem vou descer no centro.

– Que nada! Num vai perder uma tarde de sábado tão linda como esta, de jeito nenhum. Você vai comigo no churrasco o meu irmão.

Vou não vou? Pensou. Nem conheço ele. Mas como vou conhecer alguém com tanto medo que tenho de me decepcionar? Há, que seja, eu vou. Será legal conhecê-lo melhor. Lindo. Atraente. Agradável. Corpão. Sorrisão. Tem emprego fixo. Pareceu interessado em mim. E eu também não sou de jogar fora, olha meu corpão violão. Porque não? Concluiu. Toma cuidado! Alertou o sexto sentido. Cuidado com o que? Eu vou e pronto. O que vou perder? A virgindade, só se for, mas ela eu to querendo perder há um tempão mesmo.

E foi com ele. A casa era linda. Muro alto. Privacidade. Casal agradável. Gentil. Muito bem recebida. Dez minutos de papo. Ninguém bebia, nem refrigerante. Geração saúde. Água e suco.

– Bem, o papo tá bom, mas to a fim de comer uma carninha, cadê o churras? Ele falou sorridente.

– Não tive tempo de comprar a carne. Dei plantão até tarde. Vamos lá comprar irmãozinho. Pegou a carteira na bancada e abriu a porta em direção a sala.

– Vamos lá e voltamos rápido tá?

Engraçado, podiam ter saído pela cozinha. Um minuto e o carro não fez barulho.

– Vão a pé? Perguntou pra anfitriã.

– É. O açougue é perto daqui. Num viu não? Vocês passaram na porta dele.

– Vi nada! Estava distraída de papo com ele.

– Eu sei como é. Aceita um suco?

– Claro. Tá um calorão, né?

O suco estava geladinho e com um toque de limão. Enquanto tomava, pensava na sua vida. Quem diria que em vez de um batizado ela estaria em um churrasco numa casa tão linda com gente tão bacana. Nuvens apareceram em seus olhos. Tonta? O que estava acontecendo. A moça tomou o copo de sua mão e a ajudou a se sentar. Gritou para alguém:

– Está pronta. Venham pegá-la. Apagou.

Uma mão pegou em seu braço e a puxou. Seus olhos pesados não abriam ao seu comando. Sentiu-se carregada e colocada em algo frio.

– É muito gostosa! Vou comê-la primeiro. Depois retiramos o material. Falou o rapaz.

Ela quis reclamar, mas a voz não saiu.

– Ela ainda tá ligada. É bom. Detesto comê-las depois que dormem. Tem umas que não aguentam nada e apagam.

– Grogue assim é melhor, porque não ficam mole demais. O rabo é meu! Falou outro.

Uma voz desconhecida riu alto e falou: – É uma pena um corpão desse ter de ser desperdiçado, mas negócio é negócio.

Ela sentiu suas roupas serem retiradas, e depois suas pernas abertas. Quis protestar. Doeu fininho. Doeu muito. Sentiu seu corpo pressionado e depois um suspiro de alguém.

– Agora é sua vez. Anda rápido, porque temos um churrasco pra ir depois de entregar os órgãos a clinica. Falou o rapaz que a levou na casa.

Sentiu a parte de trás do seu corpo ser invadido. Entrou em pânico total. Apagou sem poder reagir.

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