HISTÓRIAS

INOCENTES OU CULPADOS?

Muito jovem e bela. Corpo perfeito e sorriso majestoso. Talvez estivesse na casa dos quinze ou dezesseis anos. Tão linda e tão nova para chorar. Moça demais para entender as artimanhas e as voltas que a vida nos dá.

Chegou de mansinho e perguntou-me: Professora, o que a senhora faria no meu lugar? Meu namorado anda me batendo por qualquer motivo. Diz que me ama, mas me bate, diz que é por amor e que quer me preservar dos outros. Hoje bateu em mim na porta da escola, com todo mundo olhando, porque eu estava conversando com umas colegas de sala na entrada da escola, enquanto esperava ele me buscar. Disse que não queria que eu conversasse com as vadias da minha sala na saída. Eu o amo e não sei o que fazer. Muitas vezes penso em deixá-lo, porque acredito que ele pode piorar, em outras vezes acredito que ele tem momentos ruins, mas no fundo é bom.

Meu Deus, pensei, ela não precisava de mim para ajudá-la. Ela tinha seus demônios internos e precisava resolver sozinha qual deles alimentar melhor. O rapaz não era bom para ela, era muito ciumento e precisava de tratamento para sua agressividade. O amor não resolve tudo. Eu não podia dizer a ela: Se separa dele e vá viver a sua vida, porque você é jovem e vai se apaixonar muitas vezes ainda.

Muitos anos depois da nossa breve conversa na sala de aula eu a encontrei no shopping. Estava feia, e parecia muito mais velha do que era na verdade. Tinha um casal de adolescentes consigo. seu rosto era a fotografia da dor e do sofrimento pelo qual havia passado. Marcas de cortes no rosto. O corpo magro e acabado denunciava maus tratos. Casara-se com o agressor porque engravidara. Parou de estudar, sem terminar o segundo grau. O marido estava preso por agressão, não a ela – porque nunca tivera coragem de denunciá-lo, por medo – mas a um vizinho que ele aleijou num momento de ódio.

O que eu podia dizer: Eu te avisei? Você sabia desde o principio que ia dar nisso? Mais uma vez eu não poderia dizer, nem fazer nada. A vida já dissera e fizera tudo. Eu não teria coragem de ser tão desumana com ela. Passar a unha numa ferida que não cicatrizaria enquanto ela estivesse com ele? Eu não.

Eu fico aqui pensando que, nós mesmos armamos nossas arapucas e pisamos nelas. Depois gritamos por ajuda, por alguém que as desarme para nós.

Quando nos deparamos com os problemas cotidianos, sempre acreditamos que somos as vítimas, os enganados. Os outros é que são culpados. Enquanto ficarmos nos fazendo de pobres coitados, e não nos livrarmos dessa maneira tola de pensar, infelizmente, não daremos conta de sermos felizes.

Não se preocupe com o que pode fazer aos seus inimigos externos, mas sim, com o que está disposta a fazer com o que está dentro de você. Abra seus olhos e sua mente. Pare de se enganar. Veja o que está a sua frente com clareza. Ninguém é culpado pela vida que você escolheu levar. Tudo que fazemos volta para nós, em dobro e as vezes em triplo. Não se iluda, “o que o homem semear, ceifará”!

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