HISTÓRIAS

OITENTA ANOS SEM AMAR

Nasci na década de trinta. Minha vida nunca foi fácil,como a de muitas pessoas que eu você conhecemos ou ouvimos falar. Meu pai era um homem sem amor a família, tanto que nos abandonou cedo, deixando minha mãe com catorze filhos para terminar de criar sozinha.

Sempre me achei frio demais para ser normal. Cresci me achando o dono da verdade e do mundo, embora muitas vezes não tivesse nem o que comer em casa. Nunca gostei de trabalhar, mas tive de fazê-lo para sobreviver. Durante um tempo fui pedreiro e depois consegui juntar um dinheiro e tirar carteira de motorista. Demorei para exercer a nova profissão, porque não tinha estudo nenhum. Mal fiz a segunda série de grupo.

Aos dezoito anos, conheci uma mulher até legal. Naquele tempo, a mulher devia se cuidar e não entregar seu maior bem, a virgindade, a nenhum cara. Ela me disse que não era mais virgem, que o primeiro namorado tinha abusado dela e não quis casar. Eu fiquei meio cabreiro, mas cai pra dentro. Sou homem, você sabe. A carne é fraca. Deu mole a gente entra mesmo. Ainda mais naquela época de escassez de liberação da carne feminina.

E não é que ela engravidou? Deu mole demais. Eu sai fora. A obrigação de se prevenir sempre foi da mulher. E também, ela nem era mais virgem, não era minha obrigação tampar buraco de outro. Nunca mais falei com ela. Me mandava cartas, pedia para eu voltar. Nem dei resposta.

Passei grande parte do meu tempo correndo atrás de mulher. Minha maior preocupação na época era pegar todas as que fosse possível, enganá-las com falsas promessas e depois sumir. Minha vida se resumia em passar a noite na farra e gastar meus parcos recursos no final de semana.

Eu já tinha vinte quatro anos. Tinha um amigo e fui à casa dele para combinar uma pescaria. Lá conheci a mulher mais linda da cidade. Corpo de violão. Cabelo lindo e sedoso. Olhar de estou à procura e boca de dengo. Simplesmente linda. Uma perfeição. Apaixonei. Pena que ela tinha uma família grande, cheia de irmãos bravos e fortes. Num deu pra comer, porque a marcação era cerrada. O pai ficava a espreita e quando dava  hora de ir embora, ele aparecia na sala e me mandava puxar o pé pra fora.

Casei com ela. Era virgem. Tratei-a como merecia. Xingava toda vez que ela pedia algo que eu não queria dar, amor e carinho, por exemplo. Continuei na farra como se fosse solteiro. Noitadas, mulherada e tudo que queria. O mundo era meu. Eu era homem.

O tempo passou. Tivemos três filhos. Uma menina e dois meninos. Eu vivia acusando-a de me trair, quando era e que fazia isso. Tive quatro filhas fora do casamento. Ela só ficou sabendo de duas. Mesmo assim, ela me amava incondicionalmente. Coisa de macho. Eu tinha uma coisa que atraias as mulheres pro meu lado. Era irresistível.

Eu sempre bebi muito. Eu nunca dei carinho e amor aos meus filhos. Tratava a todos com desdém e grosseria. Meus filhos cresceram como eu, exceto minha filha. Eram desamorosos e violentos. Nunca combinamos. Eles não aceitavam minha disciplina.

Depois de um tempo tive de vender minha casa para pagar as dívidas das farras em que eu entrava constantemente. Comprei uma casa em outro bairro e fui pagando as prestações. Minha mulher começou a trabalhar fora para me ajudar. Depois de um tempo eu fui deixando as despesas por conta dela e voltei a aproveitar a vida de novo. Com a ajuda dela eu fiz uns barracões de aluguel.

A vida foi passando. Os filhos crescendo. Minha mulher definhando. Eu aproveitando como sempre. Eu envelheci. Tive de parar de beber e de fumar, porque tive problema de cirrose e enfisema. Nunca parei com a mulherada. Nunca parei de gastar dinheiro à toa.

Meus filhos construíram no lote com minha autorização. Afinal sempre é bom ter um investimento para o futuro. Deixei com a intenção de depois mandar eles comprarem algo pra eles e eu ficar com construção pra mim.

Dito e feito. Depois que meu filho mais velho casou pela segunda vez, foi morar com a mulher em outra cidade. Tomei a casa dele.

Minha filha arrumou outro cara e casou de novo. Mudou e levou minha mulher com ela, graças a Deus. Ela já cuidava dela há muitos anos mesmo. Tomei a casa dela também.

Aprontei tanto que minha mulher morreu de desgosto. Eu aproveitei que ela foi pro além e coloquei outra mulher em casa quinze dias depois.

Hoje usufruo do meu salário de aposentado. Recebo a pensão da minha mulher (minha filha pagou o INSS pra ela aposentar) e ainda pego três mil de aluguéis.  Minha mulher atual é que nem eu, por isso me entende. Ela que me incentivou a correr com os filhos e não dar nada pra eles. Só dou as coisas pra ela, porque ela é igual a mim.

É isso ai. A vida é assim. Não existe mesmo o amor. Eu pelo menos nunca vi. Não sei o que é…

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