HISTÓRIAS

FILHO DE PEIXE, PEIXINHO É?

Ouvi este provérbio uma vez e pensei se ele tinha algo a ver
com minha vida. Pareceu-me naquele momento que tinha tudo a ver comigo… mas a
vida pode mudar um dia…

Cresci num bairro de classe média. Minha mãe era prostituta
e nós morávamos em uma casa com mais seis mulheres, também prostitutas como
minha mãe.

Mas elas não eram quaisquer prostitutas, haviam juntado
dinheiro e comprado aquela casa de um velho freguês que tinha muitas outras
casa, mas resolveu vender aquela a preço de custo para elas, desde que tivesse
entrada franca, pelo resto da vida. coitado, morreu um mês depois de feito o
negócio de forma que nem chegou a usufruir do acordo feito. Pelos padrões
daquela época, elas estavam muito bem de vida.

Era uma casa enorme, estilo antigo, com muitos quartos, duas
salas enormes e grande alpendre. O quintal era fabuloso. Eu era a única criança
naquele espaço todo. Não tinha ninguém para brincar.

Mamãe falava que quando eu crescesse seria igual a ela. Que
iria me ensinar a ser bem melhor, mais refinada, para ganhar mais do que ela.
Quando eu fiz seis anos, em vez de entrar para a escola, comecei a ser ensinada
por mamãe na arte de ser uma mulher especial, como ela dizia.

Aprendi a ler, escrever, fazer contas, coisas que as
crianças faziam na escola. Mas o que eu mais gostava era das aulas de dança,
canto, tocar instrumentos musicais, e as outras coisas que uma moça refinada
devia aprender.

Aos sete anos eu entrei para a escola regular. Todo dia
voltava rapidamente, trocava de roupa e ia para as minhas aulas com minha mãe e
minhas tias. Era um tempo cheio de novidades, e eu apreciava tudo aquilo.

Na minha cidade não havia muito que fazer. Não havia escola
além da quinta série. E mulher quase não tinha trabalho, exceto se fosse para
capital. A única vantagem era que nossa cidade era dividida ao meio por uma
interestadual muito freqüentada. Assim que terminei a formação escolar, aos onze
anos, comecei a trabalhar.

Meu trabalho era recepcionar os convidados, fazer-lhes
companhia e entretê-los com alguma conversa educada até que mamãe ou uma de
minhas tias estivesse desocupada e viesse atendê-lo.

Quando fazendeiros ricos ou outro cliente planejavam um
jantar com os amigos, despedida de solteiro, ou mesmo uma reunião de trabalho
informal, eles telefonavam para nós solicitando nosso serviço. Elas tinham de
entretê-los animando a reunião e
certificando-se de que cada participante ficasse plenamente satisfeito.

Quando encomendavam uma
apresentação das meninas de nossa
casa era necessário que elas previssem a necessidade de cada convidado e a
satisfizesse, antes que ele pedisse. Não sei, mas acho que a parte mais difícil
era ter de fazer adaptações de última hora, tipo arrumar mais uma moça ou uma
delas ter de atender dois ao mesmo tempo.

Se os clientes quisessem dança, elas dançavam. Se quisessem
ouvir música, elas pegavam seus instrumentos e tocavam ou cantavam.

Elas eram todas prendadas e por isso a casa era tão
freqüentada. As meninas proporcionavam entretenimento aos clientes. Minha mãe
era a mais talentosa, não lhe faltava trabalho, presentes caros e generosas
gorjetas dos clientes.

Mamãe me ensinou muitas coisas e sem estas qualificações,
talvez me visse pressionada a fazer o que quer que os cliente pedissem quando
chegasse minha hora de entrar firme no trabalho na casa.

Na minha cidade poucas pessoas tinham dinheiro e estabilidade
econômica, muitas moças decidiam virar prostitutas para ajudar a família.
Outras eram vendidas pela própria família para as diversas casas que tinham nos
arredores da cidade. Os seus donos
exigiam delas altas horas de trabalho, como um retorno pela compra delas. Moças
nestas situações ficavam em grande desvantagem, pois seu trabalho começava cedo
e elas não tinham hora para parar.

Treze anos de idade. Enfim chegou meu dia de começar a
trabalhar na casa. No meu primeiro dia foi uma comoção geral. Vieram
fazendeiros com seus filhos, alguns tão jovens quanto eu. Todos interessados em
ser o primeiro homem da minha vida. Mamãe recebia envelopes com propostas que
ela examinava e recusava devolvendo-os com uma conversinha no pé do ouvido e um
sorriso educado.

Eu estava vestida com um belíssimo vestido vermelho,
decotado e sem mangas. Meu coração não se agüentava de tanta alegria.

Eu não tinha noção do que me esperava. Nada era do jeito que
eu pensava. Minha primeira vez foi terrível e custei a me recuperar do susto.
Eu nunca fui preparada para o que aconteceu. Fui estuprada por um fazendeiro
que pagou a maior quantia por mim. Vou poupá-los dos detalhes sórdidos. Vocês
não iriam querer saber.

Certo dia, quando eu tinha 15 anos, fui com minha duas de
minhas tias ao centro da cidade fazer umas compras. Ao chegarmos próximo a
primeira loja que devíamos fazer umas compras uma delas deu de cara com duas
mulheres estranhas. Ela mandou que eu entrasse na loja com a outra tia, que ela
iria conversar com as mulheres.

Após alguns minutos de conversa as mulheres entraram na loja
e uma delas disse que era minha mãe verdadeira e que estiver me procurando por
todo este tempo e viera para me levar para casa.

Quase tive um enfarte com o susto. Eu conhecia a outra
mulher. Ela era dona de uma casa de prostituas concorrente com a nossa. Ela até
me ofereceu emprego, disse que eu deveria trabalhar para sustentar minha mãe
verdadeira uma vez que ela passava necessidade. Nunca havia passado pela minha cabeça
que minha mãe não era minha mãe de verdade.

Com a cabeça bagunçada, voltei correndo pra casa sem nem
ouvir o restante da história, para casa contar à minha mãe o que havia acontecido.

Minha mãe sempre fora uma mulher forte. Nunca a vi chorar. Mas
naquele dia seus olhos se encheram de lágrimas. Disse que desejaria ter sido
ela a pessoa a me contar que eu, quando tinha um ano de idade, havia sido
entregue a ela por minha verdadeira mãe.

Foi um baque tremendo em minha vida. Perdi toda a confiança
nela e nas minhas tias. Tornei-me calada e arredia. Eu não aceitei a minha verdadeira
mãe. Ficou claro para mim, que ela sabia que eu estava bem e queria apenas
desfrutar de meu salário. Ela era uma prostituta também. Não tinha clientes
suficiente para ter uma vida boa. Assim, achei que havia tomado a decisão certa
naquele momento, em não ter ficado com ela.

Embora as vezes ficasse aborrecida com a minha mãe adotiva
que me criou para ser prostituta, eu acabava perdoando-a. Era só isso que ela
sabia fazer. Eu tinha de admitir que ela havia me treinado para que sempre
pudesse me sustentar. Fora minha primeira vez, ela sempre escolheu com cuidado
meus clientes, protegendo-me de homens que requisitavam o nosso serviço com
maldade no coração.

Mesmo sendo prostituta, mamãe me ensinou princípios. Ela
sempre destacou que meu sim deveria ser sim e meu não, não. Ela também me
ensinou a assumir responsabilidades e a ser rigorosa comigo mesma. Seguindo os
princípios que ela me ensinou, tive sucesso no meu trabalho. Tenho as minhas
dúvidas se teria recebido tal ajuda de minha mãe verdadeira. É bem provável que
minha adoção tenha me resgatado de uma vida muito pior do que de prostitua, com
durezas inimagináveis. Por fim, cheguei à conclusão de que tinha de me dar por
feliz por ter sido adotada e me tornado uma prostituta.

Aos dezenove anos dei bobeira e engravidei. Era velha, se
levasse em conta as meninas em minhas condições. Mamãe sempre cuidou de que eu
me prevenisse para não engravidar.

Tive um filho. Visto que ter um filho em minha profissão era
algo natural, não achei que tivesse algum problema. Fiquei muito feliz com o
meu filho e mamãe orgulhosa de ser avó. Ele era meu tesouro precioso, razão de
viver e de trabalhar cada vez mais para sustentá-lo e lhe dar uma vida melhor
do que a minha.

Eu tinha vinte e um anos de idade quando uma de minhas tias
matou um homem que bateu nela. Os comparsas dele mataram-na e colocaram fogo na
casa, fazendo com que todas nós tivéssemos de sair correndo sem ter tempo de
pegar nada. Eles nos colocaram para fora da cidade e tive de fugir da cidade
com o meu filho.

Meu filho estava fortemente gripado e com suspeita de
pneumonia. Eu havia ficado sem dinheiro algum. Tudo que tínhamos estava na casa
e havia sido queimado. Eu e mamãe tentamos carona, mas na conseguimos nada,
porque estávamos juntas e levávamos uma criança. Minhas tias sumiram e não
conseguimos nos juntar a elas.

Dois dias de caminhada e então conseguimos pegar uma carona
com um caminhoneiro que ia para a capital. Ali chegando, passamos a noite debaixo
de uma marquise. Meu filho ardia em febre. Começou uma chuva forte e nós
passamos a noite abraçadas e encolhidas tentando garantir que meu filho
permanecesse seco e a salvo, mas antes que o dia clareasse e eu pudesse procurar
um hospital para levá-lo, ele morreu em decorrência de pneumonia. Ele tinha pouco
mais de um ano de idade. Fiquei arrasada. Um homem que passava na rua, ao ver
meu desespero, me levou ao hospital, apenas para constatar o que nós já
sabíamos.

Como não tínhamos casa e nem amigos, fomos para um abrigo da
prefeitura. Mas logo correram com a gente de lá, mandando que fossemos procurar
emprego. Nos chamavam de vadias. Eles é que não sabiam de nossa história.  Mamãe aceitou uma passagem da prefeitura para
voltar para nossa cidade, mas eu decidi que ia tentar a vida por capital mesmo.

Ante de partir, mamãe exigiu que eu enviasse dinheiro para
ela na cidade todos os meses para que ela pudesse reconstruir a casa antiga.
Suas exigências descabidas, sabendo da minha situação, fizeram com que me
sentisse mais só do que nunca. Eu sentia dolorosamente a perda do meu filho e
precisava de palavras de consolo, mas ela mamãe nunca disse uma palavra sequer para
me consolar. Ela só se importava consigo mesma.

Muitas prostitutas que eu conhecia nunca se casaram, e elas
evitavam ter filhos homens. Geralmente adotavam bebês do sexo feminino de
famílias pobres, que treinavam para ser prostitutas, com o único objetivo de ter
uma velhice mais confortável com o apoio financeiro da filha adotiva. Cheguei a
uma triste conclusão de que minha mãe não era diferente das outras, ela me
adotara e cuidara de mim apenas com a intenção de garantir sua segurança
financeira na velhice.

Os bandidos que nos expulsaram foram todos mortos por causa
de uma briga num bar. Minhas tias nunca voltaram a antiga casa. Mamãe trabalhou
por um tempo e depois parou, porque eu comecei a trabalhar em uma casa de
prostitutas de luxo e mandava dinheiro suficiente para que ela pudesse viver
tranquila.

Na semana que fiz vinte e três anos, recebi um telefone
urgente. Mamãe estava nas últimas. Fui vê-la. Poucas horas antes de morrer ela
me agradeceu formalmente perante testemunhas por tudo que fiz. Ela me disse que
eu havia feito mais do que o bastante para ela. Este único ato de agradecimento
de toda uma vida compensou todos os meus anos de trabalho árduo. A satisfação
de ter cumprido com o meu dever perante ela, ainda me comove até as lágrimas.

Aos vinte cinco anos, dei à luz uma menina, e decidi a
partir daquele momento trabalhar duro para lhe dar condições de viver bem.

Eu havia juntado dinheiro suficiente e pagava aluguel de um
quarto com banheiro no centro da cidade. Durante parte do dia eu dormia. Na
outra parte eu estudava. Toda noite eu saía para trabalhar e deixava minha
filha com uma babá. Fazia apresentações de dança do ventre, que eu havia
aprendido com minhas tias.

Apesar de ser uma das mais requisitadas e bem pagas da casa,
eu não era feliz. Talvez se tivesse me casado eu não me sentisse tão só, mas infelizmente
não dá para ser prostituta e casada ao mesmo tempo. Minha vida girava em torno
de minha filha e da escola.

Nunca cogitei em treinar minha filha para ser prostituta. A
despeito dos desconhecimento da sociedade no assunto, a maioria de minhas
colegas de trabalho treinavam as filhas, para perpetuar seu trabalho,
principalmente nas cidades do interior.
Não segui este costume. Preocupei-me em pensar sobre o tipo de vida que minha
filha teria se aquele tipo de vida fosse oferecido a ela como único recurso de
vida. Se isso acontecesse, como eu, ela nunca teria uma família de verdade. Eu
não queria perpetuar aquele círculo vicioso. Desejava para minha filha e para
todos os filhos e filhas que ela viesse a ter, uma vida normal. Não queria que,
no caso dela, se cumprisse o provérbio de filho
de peixe, peixinho é
, que eu citei no início do texto.

Quando minha filha entrou na adolescência, ela ficou terrível.
Fora criada sozinha, com apenas uma babá tomando conta, quando não estava na
escola. Ela precisava do meu tempo e atenção mais frequentes. Assim, embora
estivesse ainda na casa dos trinta e cinco, parecendo ter bem menos do que isso
e no auge da minha carreira, decidi deixar a vida de prostituta.

Eu havia me formado em enfermagem, e feito estágio em um bom
hospital. Procurei por um emprego de enfermeira e encontrei. Abandonei a minha
carreira por amor a minha filha. Começamos a jantar juntas, e quase que
imediatamente ela ficou mais fácil de lidar. Oferecer mais de meu tempo a ela
lhe fez maravilhas e a mim também.

Com o tempo, eu fui promovida. Comprei um pequeno
apartamento com incentivo do governo e nos mudamos para um bairro simples e
pacato. Minha filha cresceu e se casou com um bom rapaz. Ela nunca lhe contou
da vida que eu levei. Compreendi seu receio. Dois anos depois minha filha deu a
luz meu primeiro neto.

Quando fiz quarenta e seis anos eu fui com minha filha, meu
genro e meu neto a um restaurante para comemorar meu aniversário. Lá
encontramos um amigo dele que estava com o tio viúvo. Foi amor a primeira
vista. Desde então, estamos juntos. No meu caso, a vida recomeçou um pouco
depois dos quarenta.

Hoje tenho setenta e sete anos de idade. Netos, bisnetos e
um marido maravilhoso. Minha filha se foi há dez anos vítima de um derrame. Eu
já não sou lá aquelas coisas, mas me viro.

Nunca contei ao meu marido sobre a vida que levei. Também,
ele nunca perguntou…

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